sábado, 13 de junho de 2015

A viagem do Vietnã aos Laos

Eu olhei no relógio, eram 5 horas da tarde. Tinha acabado de acordar da minha sonequinha depois de uma viagem super cansativa para Sa Pa. Resolvi apenas checar o horário do ônibus para o Laos, que tinha certeza que partia às 9 da noite. Já tinha até confirmado com a menina da recepeçao que me vendeu o ticket! Meus planos eram acordar, tomar um banho e sair para comer algo antes da viagem. Estava faminta só tinha comido o café da manhã as 7 da matina.

Peguei o ticket calmamente e li: pick up time at the hostel, 5PM. 

O que? Como assim? Agora?

Desci as escadas correndo até a portaria, querendo estrangular a menina que havia me confirmado o horário e me certifiquei: 

- O ônibus pra Vientiane sai mesmo as 17? 

-Sim! Quer fazer o check out?

-Nãããão!!! 

Subi correndo novamente, coloquei tudo dentro da mochila e ainda ousei pular debaixo do chuveiro no banho mais rápido da história. As 5 e 10 estava de novo na portaria fazendo o check-out. 

Apareceu um cara berrando algo que não entendi, e o moço da recepção mandou eu segui-lo. Ele parecia bravo porque aparentemente  estava esperando somente por mim. Tudo uma correria, uma confusão, e o menino da recepeçao dizia pra eu ir logo, enquanto ao mesmo tempo eu repetia que queria meu passaporte que havia ficado retido no hostel! Ele parecia tão nervoso quanto eu, e depois de eu repetir pela terceira vez ele entendeu que precisava devolver meu passaporte para que eu pudesse ir.

Segui o cara de camisa azul esbravejante. Ele dirigia uma moto, na contramão, e pediu para que eu e mais outros turistas trouxas (como eu), o seguissem. Andamos umas três quadras seguindo o cara de camisa azul e sua moto, pelo meio da rua, na chuva, com nossas mochilas nas costas. 

Chegamos até uma rua principal onde haviam dois táxis esperando. Eles pareciam com muita pressa. E assim que cheguei perto do táxi, o motorista arrancou a mochila das minhas costas, que se enroscou na minha bolsa e no meu braço. E num golpe, atirou a mochila, e meu braço preso à ela, dentro do porta-malas. Quase fui decapitada!

O carro era uma adaptação, e pra caber mais passageiros, parte do porta-malas havia sido transformada em bancos. O motorista esbravejante, mandou eu sentar na ultima fileira, com mais um casal soterrado em baixo de suas mochilas. Obviamente não cabiam 3 pessoas naquele lugar, mas haviam de caber. Sentei com uma perna por cima da perna da outra menina e metade da bunda pra fora do assento, na posição mais confortável do mundo. Mais 3 meninas e suas mochilas gigantes dividiam o banco da frente, e mais à frente ainda o motorista e outra menina com mais duas mochilas. Parecíamos uma lata de sardinha!

O motorista saiu dirigindo loucamente no trânsito de Hanoi, buzinando pra todos os lados, até receber uma ligação. Falou alguma coisa e retornou, depois de uns 10 minutos, para o mesmo lugar da nossa partida. Com cara de quem "não está entendendo nada", todos nós nos olhamos. E uma das meninas da lata de sardinha disse em tom de ironia: 

-Vai ver ele voltou pra buscar mais alguém!

Caímos na gargalhada, que durou até o motorista voltar com uma outra menina e sua mochila. Ele abriu a porta do banco de trás, e gritava para que ela entrasse ali. Era impossível!!!

Mas nada é impossível na Ásia. Sempre cabe mais um. Elas sentaram uma no colo das outras, colocaram as mochilas em cima de tudo, e assim fomos, por 20 infinitos minutos até a estação de ônibus.

Chegando na estação um terceiro cara nos encaminhou até os ônibus e distribuiu aleatoriamente as passagens pra cada um. Éramos uns 17 turistas trouxas até o momento. Eu fui correndo até uma vendinha e consegui comprar uma caixa de biscoitos antes de partir. Foi a minha única refeição nas 20 horas de viagem até o Laos.

Larguei a mochila no bagageiro e procurei um lugar pra sentar enquanto os outros passageiros largavam suas malas e preparavam-se pra entrar no ônibus. Sentei num banco próximo a outros motoristas e comecei comer meus biscoitos. Um deles chamou o amigo e os dois sentaram próximo à mim e ficaram falando coisas que eu não entendia, e olhavam fixamente pros meus peitos, apontando e dando risada. Devem ter ficado impressionados com o tamanho, já que para os padrões asiáticos devo parecer uma Cicciolina! Eles foram chegando tão perto, que eu pensei que o próximo passo seria estender a mão e tocar em mim. Olhei furiosa pra eles, mas não queria levantar. Perguntei se eles estavam olhando pra minha caixa de biscoitos, se eles queriam um. Depois passei a xinga-los em português, e por ultimo, totalmente acuada, levantei do banco e me dirigi pro ônibus.

Os ônibus no Vietnã são extremamente criativos. Ao invés de cadeiras reclináveis são camas, colocadas em dois andares, como num beliche. São 3 camas em cada fileira, e para caber mais gente, as últimas fileiras, no fundo do ônibus, são camas juntas, como se fosse uma cama de casal, mas que devem caber 3 pessoas, em baixo de uma outra cama, num lugar sem janelas, e ao lado da porta do banheiro. Basicamente uma caverna com um colchão. Parecida com aquelas tendas que crianças fazem para brincar. Era nesse lugar que eu devia sentar, com mais um casal de turistas trouxas. 

Fui pro meu assento na caverna e bastaram 5 minutos pra me sentir totalmente sufocada do calor aliada a falta de circulação de ar! Fiquei de pé no corredor até todos os passageiros se sentarem, e então percebi que eles separavam os turistas trouxas dos vietnamitas. Os turistas ficavam todos nos últimos assentos, os piores, enquanto a elite dominava os assentos da frente. 

Todos sentados, percebi que os assentos do meio do ônibus estavam vazios. Peguei as minhas coisas e sentei numa outra cama vazia. Assim que o ajudante do motorista me viu sentada ali, veio até mim e começou a gritar coisas que eu não entendia, mandando eu voltar pro meu assento. Eu dizia que era impossível viajar por 20 horas naquela caverna e que eu não voltaria pra lá. Ele não me entendia e berrava a mesma coisa, cada vez mais bravo. Então, ele pegou as minhas coisas e começou a levar pra fora do ônibus, me mandando descer já que eu não queria voltar pra caverna. Nessas alturas já estava muito nervosa e berrava cada vez mais, enquanto todos os outros turistas trouxas e os vietnamitas da elite só me olhavam.

Com medo, voltei pro fundo do ônibus e fiquei de pé até ele começar a se movimentar. Assim que apagaram as luzes pulei de novo na cama no meio do ônibus, agarrada nas minhas coisas, pensando que a qualquer momento o ajudante louco do motorista, viria até mim e me jogaria pra fora, no meio da estrada. Tive os mais terríveis pesadelos nessa noite. 

O ônibus seguiu no estilo Vietnamita de direção! Buzinando o tempo todo, de um lado pra outro na pista, freiando de forma brusca.

Chegamos na fronteira às 5 da manhã, mas a fronteira só abria as 7. Esperamos por duas horas até nós encaminharmos ao lado da fronteira do Vietnã. Pagamos a propina básica para os agentes da polícia carimbarem nosso passaporte de saída, e mais uma propina para os ajudantes do motorista que carregavam os nossos passaportes. 

Atravessamos a pé para o lado do Laos, enquanto os passageiros da elite foram levados de ônibus, os trouxas caminharam uns 2 kms até a imigração no Laos. Mais algumas horas de burocracia no lado do Laos e voltamos pro ônibus.

Quando entramos, duas trouxas perceberam que haviam deixado seus celulares dentro do ônibus, e que esses não estavam mais lá. Todo mundo procurando, em todos os lugares, elas avisam ao motorista que os celulares sumiram. Eles fazem cara de que não entenderam. Elas já estavam conformadas com a perda dos aparelhos quando o ajudante louco do motorista aparece com os dois celulares, tentando explicar algo que não entendemos. Enfim elas suspiram aliviadas. 

Fizemos a parada do almoço em um lugar na estrada difícil de ser chamado de restaurante (olha que não sou nada fresca, e com a viagem tenho me tornado muito menos), mas servia comida para os passageiros que ali paravam. Saímos do ônibus pra tomar um ar, quando vimos que no teto do ônibus, ao lado do nosso, haviam dois filhotes de cachorros. O que faziam dois filhotes de cachorro em cima do ônibus? Estavam sendo "transportados" em caixas que se abriram e eles com muito calor e sede fugiram. Estavam tentando sair de cima do ônibus, mas eram muito pequenos e acabaram caindo. Um deles parecia morto, o outro estava chorando de dor. A cena mais horrível que eu podia ter visto.

Enquanto isso acontecia, os turistas todos alarmados com a situação, juntaram-se ao redor do cachorrinho sobrevivente para tentar ajudá-lo, enquanto os vietnamitas ficavam apenas observando, sem mexer um dedo, somente acompanhando os movimentos dos turistas.

Fomos chamados pra voltar ao nosso ônibus, e os cachorrinhos ficaram lá, sem que ficássemos sabendo o seu destino. 

Antigamente, no Vietnã, era comum comer carne de cachorro, hoje em dia apenas alguns lugares ainda apreciam essa iguaria. Talvez esses dois filhotes virassem o almoço do dia seguinte nesse restaurante de beira de estrada.

Depois dessa ultima parada faltavam poucas horas pra chegarmos no nosso destino. Cheguei cansada, com fome, suja, suada, mas feliz por ter sobrevivido a essa "maravilhosa" experiência de viagem. E o meu hostel tinha piscina, não podia ter ficado mais feliz!

sábado, 6 de junho de 2015

O que eu aprendi no Vietnã.

Há quase 20 dias no país posso dizer que o Vietnã me ensinou algumas coisas. Aliada a minha trajetória e meu momento de vida, as reflexões e acontecimentos durante esse período tornaram essa parte da viagem única e inesquecível.
Fizemos, eu e minha mãe, uma viagem que iniciou pela fronteira com o Camboja (atravessamos de ônibus) passando por Ho Chi Min (antiga Saigon), Huê, Hoi An, Da Nang até Hanoi, atual capital do país, terminando em um cruzeiro pelas ilhas de Ha Long Bay.
 
1)As cidades podem "funcionar" de diferentes maneiras.
O trânsito é um caos (na visão de um ocidental como eu). Há motos, muitas motos, por todos os lados. Estacionadas ou andando em cima das calçadas, atravessando cruzamentos, na contramão, nunca respeitando os semáforos e sempre buzinando. Como as calçadas servem para estacionamento ou para área de mesas dos restaurantes de rua, não sobra muito espaço para os pedestres, que acabam tendo que andar pelo meio da rua. E ainda tem os ciclistas que seguem no meio do trânsito, e há eventualmente carros e alguns ônibus. Todos andando em perfeita harmonia! 

Sei que parece loucura dizer isso, mas a verdade é que tudo flui, como num balé ensaiado. As pessoas não parecem estar estressadas, nem xingam-se umas às outras. Elas também não andam em velocidade alta e não ficam bravas quando alguém "corta" a sua frente, ou não dá sinal para entrar, ou quando um pedestre cruza seu caminho. Os motoristas buzinam compondo uma melodia, mais para se fazerem presentes, do que para alertar alguém de seu erro. Tudo faz parte de uma coreografia perfeita, que para um simples espectador parece estar tudo a ponto de desabar. Mas nada desaba, ninguém cai, ninguém bate, todos saem ilesos. 

E tudo isso enquanto alguns outros moradores, continuam sentados nas mesas das calçadas bebericando o seu chá e mascando sementes de girassol, ou batendo papo com amigos nas sombras das árvores, ou fazendo exercícios nos parques (que são lindos, muito bem cuidados). Compondo assim cidades cheias de vida, até altas horas da noite até o raiar do novo dia.
 
Fiquei pensando em pesquisar quantas pessoas sofrem acidentes de transito por aqui, depois achei desnecessário. Em todo esse tempo por aqui não vi nenhum acidente e nenhum motoqueiro caído no chão. Tratando-se de cidades como Ho Chi Min, com 12 milhões de habitantes, acho que o simples fato de não ter presenciado nada já é uma boa estatística.
As motos em cima das calçadas
Os lindos parques arborizados

As mesas de rua, no meio das ruas


2) As crianças sabem se virar sozinhas.
Quando estávamos em Ha Long Bay fizemos um passeio até uma antiga cidade flutuante, onde no passado famílias de pescadores viviam em casas construídas em cima de plataformas flutuantes. Ao chegar no ponto de partida, um píer no meio do mar, havia um menininho de uns 3 anos brincando sozinho. Ele carregava um pedaço de um fio elétrico, e depois usava um pedaço de madeira quebrada para brincar num banco próximo da água. A criança parecia "sobrando", como a minha mãe resolveu apelidar as crianças por aqui, pois aparentemente não havia nenhum adulto tomando conta dela.
 
Veja só quantos perigos eminentes! Um fio elétrico, um pedaço de madeira cheio de farpas, um píer no meio do mar sem nenhuma proteção, além do sol pegando fogo do meio da manhã. E a criança estava lá, sorridente, brincando, sem dar bola para todos aqueles turistas indo e vindo de todos os lados. Uma cena dessas seria impossível no Brasil, haveria com certeza um adulto correndo atrás da criança, e falando muitos “nãos”. Mas aqui as crianças parecem ser diferentes. Elas brincam sozinhas no meio da rua, são habilidosas, ágeis e sabem se defender. Estão livres, para tentar e aprender com os erros. Ou as crianças daqui são especiais e nascem com um gene diferente das crianças no Brasil, ou o excesso de cuidados e zelo dos pais é que está acabando com a habilidade nata de sobrevivência das crianças do nosso país.
O menino brincando sozinho no píer.

 3) Um país socialista também pode dar certo.

Não, a ideia não é causar polêmica nem defender o regime político do Vietnã. Mesmo porque, para isso precisaria de muito mais informação e vivência, do que alguns dias pelo país puderam me dar. Mas a impressão que tive é que o país está dando certo. Não é um país rico, mas também não é um país miserável. Não vi milionários andando em carros importados, ou helicópteros sobrevoando a cidade (cena tão comum em São Paulo que aqui pareceria uma piada) mas também não há moradores de rua, crianças pedindo esmola, e as ruas são limpas e os parques e áreas verdes são um verdadeiro cartão postal!

O país atravessou um longo período de guerra (20 anos), numa das guerrilhas mais violentas do século XX, com milhões de mortes (mais de 3 milhões de civis). Muitas famílias foram destruídas, muitas pessoas fugiram do país e tudo isso há pouco tempo atrás. O país reabriu-se recentemente para o turismo, só nos anos 90. E parece que já está preparado para receber todos os curiosos do mundo, inclusive norte-americanos, seus ex-inimigos de guerra, que andam tranquilamente pelas ruas. Uma prova disso é a cidade de Hoi An, uma cidade muito bem preservada, com muitos restaurantes e cafés, que ganhou o título de minha cidade favorita no Vietnã.

As pessoas estão dando um jeito de sobreviver e de sustentar suas famílias, de viver bem! Eu e a mãe fomos visitar o Museu da Mulher aqui em Hanói (recomendo a visita) e assistimos à um vídeo de mulheres vendedoras de rua. Era um documentário com depoimentos dessas mulheres que vão para as ruas vender frutas, flores e todo o tipo de bugigangas. Muitas delas são provenientes de cidades do interior e vem para a capital apenas para ajudar nas finanças da família. Elas dividem uma casa, entre 10 ou mais mulheres, acordam muito cedo e trabalham até muito tarde para ganhar uns trocados. Votam para suas famílias uma vez a cada 15 dias com menos de U$20,00 no bolso, que foi o lucro delas nesses dias. Uma vida difícil, de muito desgaste. Fiquei pensando nessas mulheres, e em tantas outras que vi nesse museu. Mulheres que lutaram na linha de frente durante a Guerra (cerca de 40% dos combatentes eram mulheres), mulheres que perderam muitos filhos para guerra (uma delas havia perdido oito filhos), mulheres responsáveis pelas plantações de arroz, pela tecelagem, pela manufatura, mulheres que ainda estão lutando por um mundo melhor.
 
Assim como a The, uma jovem vietnamita proprietária de um café na cidade de Da Nang. O café é um espaço acolhedor, aconchegante, com um delicioso cardápio. Mas não é só isso, assim que sentamos na mesa, a The, veio até nós e começou a nos dar dicas de turismo, e aproveitou para nos contar do seu projeto. A ideia do café é ser um espaço para trocas, entre jovens vietnamitas e turistas do mundo todo. Os turistas ganham com as dicas e curiosidades sobre a cidade e o país, e os jovens vietnamitas ganham a chance de praticar seu inglês e aprender a língua com os turistas. Além de tudo, no próprio café ela tem alguns dormitórios para turistas que desejem ficar hospedados gratuitamente desde que se disponham a conversar com o pessoal local. Uma ideia simples, cheia de propósito. E essa foi a imagem que fiquei do país, de pessoas batalhadoras, que continuam lutando, mas dessa vez não contra o inimigo, mas contra as marcas deixadas pela história.
As vendas de rua

As mulheres vendedoras de rua.

4) O que é ser “bem-educado”.
Bom, se olhar com os olhos de um ocidental, mais especificamente de um brasileiro de classe média (metido à besta, como eu) os vietnamitas são extremamente mal-educados, de uma grosseria sem tamanho. 

Estou acostumada com a falta de gentileza nos aeroportos do mundo inteiro, mas acho que nunca tinha visto nada parecido com o que vi nos aeroportos daqui. No primeiro aeroporto, depois da chamada para o embarque eu e a mãe nos encaminhamos para a fila. A fila parecia algo “simbólico”, já que, assim que abria um espaço de menos de 10 cms entre duas pessoas, uma terceira já tomava o lugar. Além de filas paralelas que surgiam para a entrada no mesmo portão! O cara que estava atrás de nós, ou melhor grudado em nós como se fosse a nossa sombra, depois de dar umas resmungadas simplesmente passou na nossa frente. Simples assim, sem nenhum constrangimento. Assim que o avião pousou, todos os passageiros pularam de suas poltronas. Duas vezes a mãe levou um safanão na cabeça da moça que estava atrás lutando pra alcançar a sua mala. 

No outro dia, almoçando num restaurante, fiquei observando uma mulher ocidental sair do restaurante, pegar a sua moto e entrar no trânsito local. A moça já saiu irritada pois a garçonete não aparecia com a sua conta. Depois chegou uma pedestre que resolveu passar atrás da sua moto bem na hora em que ela estava saindo. E ainda depois esbravejou com umas outras motos que entraram em sua frente, antes de atravessar o cruzamento e sair pelas ruas.
Mas, foi também aqui no Vietnã que no primeiro dia em que chegamos a Ho Chi Min uma senhora, do nada, resolveu nos ajudar a encontrar o nosso hotel, caminhando conosco até a entrada da propriedade. Foi aqui que em todos os hotéis que nos hospedamos (hotéis baratinhos, de diárias de U$30,00) fomos recebidas com sucos e frutas cortadinhas, e por pessoas gentis que faziam de tudo para nos agradar, e que também tivemos o melhor serviço em restaurantes e lojas. Foi na rua da tumultuada Hanoi, que um senhor fez sinal para que atravessássemos com ele, para a nossa salvação, e foi onde ganhamos mimos das vendedoras da loja que nos acharam simpáticas. Não houve uma só pessoa, independente do seu nível social, que não soubesse onde era o Brasil. E todas sabiam alguma coisa a mais. O país do futebol, do Neymar, e da escalação completa da Copa de 94. O país das mais lindas top models. O país de belas paisagens. O país que tem como língua oficial o português. Obrigada! E não é que tenham muitos turistas brasileiros por aqui, aliás não encontramos nenhum durante a nossa viagem. 
 
É, parece que ser bem-educado não se resume a bom comportamento nos aeroportos.

5) E por último, mas não menos importante, aprendi a tomar café com gelo e leite condensado!
Uma delícia refrescante para os dias de calor por aqui.

A mãe e meu café gelado

domingo, 17 de maio de 2015

A mesmice ou a coragem, qual será a nossa escolha?

Querida amiga,
 
Li novamente tudo o que você me escreveu, antes de te responder isso, para tentar te ajudar da melhor forma possível. E eis que a sua última pergunta está aqui martelando na minha cabeça: como você está se sentindo nessa sua jornada?
Se eu lhe contar que quando você me mandou as mensagens, eu estava com o celular na não, sentada em uma cadeira de aeroporto em Penang na Malásia, com a cabeça baixa, chorando baixinho e me sentindo a pessoa mais solitária do mundo, você acredita?
Não!!! Não pare de ler agora, e nem tente cortar os pulso depois de tanto drama. Sei, provavelmente te contar isso não é nada encorajador, mas essa é a mais pura verdade, e eu devo lhe falar: tem dias que são muito difíceis.
 
E sabe porque são difíceis? Pelo simples fato de eu estar enfrentando, e encarando coisas que talvez eu nunca tivesse que encarar se estivesse vivendo a minha vida acomodada.
 
Vou te contar outra verdade chocante! Apesar de estar fazendo uma viagem como essas e parecer uma menina corajosa diante dos olhos de muita gente, eu sou muito insegura. Sim, eu tenho muitas dúvidas sobre o meu comportamento, me sinto culpada por minhas escolhas, pelas minha atitudes, e muitas vezes sinto que não mereço ser feliz. Choro, me descabelo, perco a compostura.
 
Forte isso? Talvez. Mas tudo bem também, porque essa sou eu, cheia de defeitos, chorona e sensível, procurando ser uma pessoa melhor, procurando o meu lugar no mundo, tentando me libertar das minhas culpas e ser feliz. Pelo menos hoje, por mais sofrido que às vezes seja, por mais que tenha que deixar pra trás o meu passado, me desapegar de pessoas que amo, tenho a certeza que estou no caminho certo.
 
Antes de eu sair de São Paulo eu tinha uma vida boa, não posso reclamar. Com um bom trabalho, morando bem, com bons amigos, com boas perspectivas de carreira... mas aí, um dia meus "olhos abriram" (ui, que clichê!) e eu percebi o quanto essa vidinha acomodada e cheia de vícios estava me fazendo mal.
 
Eu demorei pra admitir que era hora de partir, de mudar, e assim como você, também me sentia "fugindo" das responsabilidades como uma criança rebelde. Sofri muito pra tomar a decisão. Chorei por uma semana seguida. E então um dia sentei, e escrevi meu plano de "fuga" detalhado. Coloquei no papel as razões que me faziam ir embora e porque eu me sentiria melhor com isso. Além de fazer um planejamento financeiro, e estabelecer metas de experiências que gostaria de ter durante a minha viagem, e que de alguma forma acrescentariam algo pra mim, e não pra minha carreira. Aliás, decidi que esse tempo serviria pra pensar em alternativas pra minha carreira, pois sabia que se nada desse certo, aquilo que eu fazia antes de pedir demissão eu continuaria sabendo fazer depois dessa viagem. Certo?
 
Acho que a parte mais difícil depois de tomada a decisão foi contar isso pros meus pais, e assumir a minha decisão para o resto do mundo. É claro que meus pais foram contra a ideia de ficar um ano sem trabalhar, de sair por aí atravessando fronteiras. Minha mãe ficou com medo, meu pai achou que eu devia focar no meu trabalho. E aí, a Juju (minha guru) me disse algo que me deu força pra esse momento:
- Primeiro se convença, tenha certeza do que você quer, que você terá força pra enfrentar julgamentos de quem quer que seja. 
E foi o que eu fiz. Eu estava determinada, eu queria mudar independente das consequências.
 
E se você quer saber, essa foi a parte mais difícil de tudo isso. Depois que eu sai do país tudo ficou mais fácil. A parte de viajar, dormir em hostel, passar perrengue de viagem, economizar grana, planejar a viagem, é a parte de longe, mais fácil. É muito fácil viajar sozinha pra onde for, e tenho certeza que você vai tirar de letra. Essa também vai ser a parte divertida. Conhecer gente nova, experimentar coisas novas, ter surpresas, ver lugares lindos, viver uma cultura nova, se desafiar e se surpreender.
 
A parte difícil talvez seja encontrar com uma nova Você que há muito estava escondida. Isso pode ser doloroso. Esteja preparada.
Queria poder dizer que fazer uma viagem assim será como a viagem da Julia Roberts (Comer Rezar e Amar) mas pelo menos pra mim não tem sido bem assim. A cada dia que passa tenho ido mais à fundo nos meus sentimentos, e mexer em tudo isso tem me deixado ainda mais confusa.
 
Não acho que largar tudo e viajar o mundo seja a solução de todos os problemas ou que seja a garantia de resposta das suas dúvidas. Muito pelo contrário, prepare-se pra ter mais dúvidas, e mais problemas sem solução. Mas eu não me arrependo de absolutamente nada ( e te digo que tenho conhecido muitas pessoas na mesma situação, e nunca ouvi ninguém arrependido). Na verdade nem consigo imaginar a minha vida de outra forma nesse momento. Estou fazendo aquilo que eu sempre quis.
 
Quanto as dificuldades que surgirem no caminho, pode ter certeza que todas te farão mais forte. Você vai aprender a lidar muito melhor com qualquer tipo de situação, vai ficar mais corajosa, e vai rir quando as pessoas postarem que estão com raiva do transito ou da chuva em São Paulo ou no Rio.
 
Mas prepare-se também pra repensar todas as suas verdades e seus planos de futuro. Algumas coisas não vão mais fazer sentido, e você pode ficar muito desapontada por perceber que durante toda a sua vida perseguiu coisas que hoje não servem pra você. E esteja preparada pra enfrentar isso sozinha. Porque são poucas as pessoas que tem a coragem de fazer isso, e são poucas as pessoas que irão te entender.
 
Bom, se você quer saber a minha opinião, eu te diria que você está num caminho sem volta. Se você chegou até aqui pensando nessa possibilidade não há nada mais o que possa fazer a não ser perseguir o seu desejo e fazer o que você realmente quer. Então tire coragem de onde quer que seja e vá em frente.
 
Sei que nesse momento você deve estar muito confusa, com muito medo de tomar uma decisão precipitada, com medo de se arrepender no futuro, com medo de as coisas darem errado, e eu entendo bem, eu também tive medo de tudo isso. 
 
Mas você tem certeza que quer correr o risco de olhar pra trás e arrepender-se do que você deixou de fazer por puro medo? Pense nisso.      
 
Beijos grandes e conte comigo.


quarta-feira, 29 de abril de 2015

Se eu pudesse te dar um conselho...

Se eu pudesse te dar um conselho eu diria, não leve a vida tão a sério.
 
Não faça dos momentos ruins fardos tão difíceis de carregar. Os momentos ruins chegam, não adianta fugir deles. Eles estão nos atrasos, das pessoas e dos momentos da vida. Eles estão numa doença fora de hora, na noite sozinha na cama, na solidão em uma casa cheia, nas palavras não ditas, nas expectativas frustradas. Aprendi viajando que até mesmo em Paris, ou no mar azul do Caribe, os momentos ruins aparecem. Quando chegarem, observe, entenda, e não queira que passem depressa, apenas levante e siga em frente. Ninguém é responsável pelos momentos ruins além de nós mesmos. Só coloque-os nas costas, e carregue-os até a próxima estação.
 
Não sofra com a dúvida, com a indecisão. Siga o que o seu coração mandar. Não importa o caminho que tomar sempre haverá coisas boas e ruins pra encarar. Decidiu ficar, não pense no que deixou de encontrar, de conhecer. Decidiu seguir adiante, não pense no que ficou pra trás. Decidiu comer o bolo de chocolate, coma até a última garfada, se possível lamba o prato. Decidiu correr no parque pela manhã, não pense na cama quentinha, calce o tênis e vá. Decidiu deixar o trabalho de anos numa empresa de prestígio, apenas peça demissão, não pense na carreira que deixou de construir. Vivenciei viajando que sempre haverá milhares de opções, decisões e escolhas. Os caminhos são inúmeros e as opções inesgotáveis, o segredo é apenas decidir, fazer, e usufruir até a próxima decisão.
 
Não faça planos. Sonhe, deseje e acredite, mas não trace planos tão detalhados que são impossíveis ou difíceis de seguir. A vida sabe melhor do que nós o que é melhor. Não deu pra guardar tanto dinheiro quanto planejado, mude os objetivos de compra. Não deu pra conhecer aquele lugar imperdível, conheça um lugar novo na vizinhança. Não deu pra chegar à tempo pra abraçar aquele amigo, faça uma ligação e marque um novo encontro. Percebi que a aventura e a felicidade começam quando tudo começa a dar errado. Perdi o voo, descobri uma nova cidade, fiz novos amigos. Perdi dinheiro, encontrei pessoas boas no caminho dispostas a ajudar. Não consegui o que eu queria, o que eu não queria apareceu na minha frente e era muito melhor.
 
Mantenha os olhos abertos, os ouvidos atentos e a mente quieta. A obstinação e a teimosia dificultam perceber novos caminhos, novas soluções. Viva cada momento, no presente. Deixe o passado e o futuro de fora. Eu nunca quis vir parar nesse lugar, mas as coisas aconteceram, surgiu a oportunidade e aqui estou, feliz!
 
Não faça julgamentos ou comparações. Não haverá de ser melhor ou pior, apenas será diferente. Uma praia da Tailândia poderá ser mais bonita do que uma praia no Brasil? Um encontro com antigos amigos será melhor do que com amigos que acabei de conhecer? Se houver comparações sempre haverá julgamento, e nada, nunca será suficientemente bom. As pessoas e os lugares são do jeito que são, e só.
 
Não crie expectativas, do emprego dos sonhos, da casa ideal, do relacionamento ideal. Aprendi nos meus últimos meses de viagem que a felicidade pode estar no trabalho mais simples, no uso da força braçal ou dos talentos mais natos. Que a casa ideal não precisa ser exclusiva, pode ser compartilhada, pode ter passarinhos cantando pela manhã ou uma vista pro horizonte, pode ser de madeira com frestas no chão, ou muito pequena. E o amor pode estar numa conversa corriqueira, numa ideia compartilhada, num abraço fora de hora, numa música cantada juntos, numa risada de uma piada boba, no silêncio dos pensamentos.
 
Levar a vida à sério, condicionando a felicidade à conquista de um carro novo, de uma promoção de trabalho, da aquisição de uma mobília nova, de uma refeição num badalado restaurante, de um corpo perfeito, de um encontro com os amigos ou na viagem de final de ano, é a maneira mais fácil de viver, e também a mais frustrante. Viver de forma simples e feliz, sem excessos, sem aquisições desnecessárias, sem expectativas com os relacionamentos, trabalhando duro e em harmonia com a natureza, isso sim, é difícil.
 
Depois de quase nove meses viajando pelo mundo sei que tenho mais dúvidas de quando iniciei a viagem. Dúvidas do que ser, do que perseguir, do que desejar, e pra onde ir para alcançar essa vida simples e feliz. Hoje apenas sinto que estou mais tranquila, mais segura e mais corajosa. Por isso que não sou a pessoa mais indicada para sair por aí distribuindo conselhos. O que desejo, é apenas que mais amigos sigam por esse caminho que decidi seguir, e que juntos tenhamos histórias pra contar, e no futuro, conselhos pra compartilhar.
 
Será mesmo que a praia na Tailândia é mais bonita que no Brasil?

domingo, 12 de abril de 2015

Os 10 dias de silêncio.

Não sei bem de onde saiu essa ideia maluca de fazer um retiro de 10 dias de silêncio. Quando eu estava lá, em silêncio de fala, mas em conversa com a minha mente, que mais parecia uma reunião de condomínio de tão confusa e cheia de interesses, esse assunto veio à tona. "Como eu vim mesmo parar aqui?"
Há algum tempo atrás estive pesquisando muito sobre a Índia e seu lado espiritual, e acho que foi dessa pesquisa que tudo isso surgiu. E aí lendo sobre a experiência dos meus amigos, Dri e Manu na Tailândia, fiquei ainda mais curiosa, e então decidi aproveitar a oportunidade e encarar o desafio.
E que desafio! Por algumas vezes pensei que qualquer coisa deveria ser melhor do que estar ali, até mesmo uma prisão ou um hospício (juro que esse pensamento me ocorreu), e eu estava fazendo isso por vontade própria! Ninguém me prendia ali, e eu poderia dar as costas e ir pra alguma praia paridisiaca tomar cerveja e comer camarão, mas o que me fez ficar foi a minha teimosia aliada a uma enorme sede de auto-conhecimento.
A rotina não era nada fácil. Todos os dias acordávamos às 4 da manhã e meditávamos aproximadamente umas 7 horas por dia, mais as aulas de meditação e yoga. A alimentação era restrita à duas refeições vegetarianas, sendo a ultima servida ao meio dia. No café da manhã tinha todos os dias a mesma sopa de arroz. Sim, sopa de arroz no café da manhã! E a noite eu sonhava com uma torrada de queijo (misto quente para os paulistanos)...
Além disso, dormíamos numa cama que era uma esteira com travesseiro de madeira e tomávamos banho de canequinha. Eu levei mais ou menos um 9 dias pra entender como fazia pra lavar o cabelo desse jeito. Fora o calor, que era insuportável durante as noites sem ventilador no quarto. E ainda haviam algumas regras que deveriam ser seguidas. Não escrever nenhum diário, não ler nada, não ouvir música, não deitar em nenhum lugar durante as atividades, não comer nada além das refeições oferecidas, entregar celular e computadores, e não falar, claro. Acho que a parte do "não falar" foi a mais fácil de todas, aliás ajudou muito a manter a serenidade.
Pra mim, definitivamente os primeiros e os últimos dias foram os mais difíceis. No primeiro e no segundo dia achei que ia morrer, que não ia aguentar, que dez dias era uma eternidade, que preferia ficar dez diais trabalhando em um Construction Review do que ficar ali. Mas aí a mente foi se acalmando, o corpo se acostumando às posturas de meditação, e com as aulas de meditação, do terceiro ao oitavo dia, tive meu melhor rendimento. Nunca imaginei que a meditação fosse capaz de me proporcionar momentos como os que experimentei em Suon Mokkh. Às vezes tinha a sensação que aquilo era melhor que sexo, ou ainda melhor que muita droga (ai, se Buda sabe que eu pensei isso), e às vezes, depois da meditação, achava que tinha encontrado a resposta pra muitos dos meus problemas. Mas confesso que esses momentos foram poucos. A maior parte do tempo, sentada no chão, tudo o que eu conseguia pensar era na dor nas costas, na perna, no joelho, no pescoço, ou então no meu plano de viagem ou em burrices do meu passado, ou ainda em coisas banais, como letras de música dos Mamonas Assasinas ou em cenas de filmes bobos como o Virgem de 40 anos. Aaaaa não me pergunte como essas coisas foram parar na minha mente no meio de um retiro de meditação, mas elas estavam lá, infiltradas em outros pensamentos mais profundos sobre minha vida.
Depois de aprender e praticar algumas das lições básicas do Budismo como o desapego, o foco no presente, que tudo é finito, o não julgamento, eu cheguei à algumas conclusões e tive alguns "insights" (muito pessoais e um pouco chocantes pra eu expor aqui). Pela primeira vez na vida tive interesse em aprender mais sobre uma religião. Me identifiquei com muitos dos conceitos e pretendo estudar mais a religião (que aliás é bem complexa) e desenvolver ainda mais esse lado espiritual.
Acho que ainda tenho que dar um tempo e "digerir" tudo o que se passou nesses 10 dias. Ontem pela manhã tudo o que eu queria era sair correndo de lá, estava cansada de tanta meditação e feliz por concluir o retiro, mas posso afirmar que muita coisa mudou dentro de mim. Prova disso é que fiquei 11 dias sem beber, e hoje quando tive oportunidade de beber aquela cerveja bem gelada, simplesmente não tive vontade. Mas comer a torrada de queijo, isso sim, eu comi! Hummmm, e tava uma delícia!





sábado, 7 de fevereiro de 2015

Se tiver medo, vai com medo mesmo!

Conheci uma menina brasileira de 21 anos no hostel que estava hospedada em Barcelona. Algumas horas de conversa, e percebi que ela nasceu e foi criada em uma família de classe média alta carioca.
A menina estava passando por uma situação difícil, de ciúmes e briga com o namorado, no meio de uma viagem de férias financiada pelos pais. E ela simplesmente não soube resolver os seus problemas sozinha. Durante a calorosa discussão que presenciei, eles usaram seus celulares de número brasileiro (imagina quanto isso custava) para ligar para mãe e para o pai, do outro lado do oceano, pedindo ajuda com o que estava acontecendo ali. Demonstravam tremenda fragilidade, dependência, insegurança, e acima de tudo um medo enorme por não saber como agir, longe de tudo aquilo que lhe és familiar. Não julgo a reação dessa menina, porque eu mesma, na mesma idade, fiz ligações do hemisfério norte para que a minha mãe no Brasil tentasse resolver os meus problemas.

Conheci uma outra menina, americana, 19 anos, num hostel na Eslovênia. Menina comunicativa, sorridente, de pais chineses mas criada nos Estados Unidos. Em algumas horas de conversa pude perceber que ela teve uma educação rigorosa, mas ao mesmo tempo de muita liberdade. Ela estava viajando sozinha pela Europa durante dois meses, fazendo couchsurfing (dormindo em sofás de gente desconhecida), de ônibus, planejando a cada dia sua rota e administrando o seu dinheiro. Estava feliz, e já fazia planos para sua próxima viagem.

E aí, pensando nessas duas meninas, fiquei me perguntando: o que diferenciava a atitude delas? Porque uma estava tendo as piores férias da vida e a outra as melhores?A resposta surgiu! O medo! Nós brasileiros nascemos e crescemos num país cheio de medo. Medo de sair na rua, medo de não conseguir emprego, medo de faltar dinheiro, medo de estranhos, medo da solidão, medo o tempo todo, e por todos os lados. E pais como o dessa menina, e também como os meus, obviamente criaram seus filhos protegendo-os desse medo, e dessa insegurança toda. O resultado? Nós brasileiros somos medrosos! Estamos despreparados para enfrentar os problemas da vida, temos medo das mudanças, do novo, e ficamos estagnados. 
Ter medo é natural, enfrenta-los é o que faz de nós pessoas mais felizes e realizadas. No momento que mentalizamos que tudo dará certo, que não ficamos obcecados por controlar todas as situações, que tentamos enxergar o lado positivo até da pior situação, tudo passa a fluir e acontecer da melhor maneira possível.

A viagem da menina americana já terminou. Ela postou um monte de fotos bacanas em diversos países que visitou, e de pessoas que conheceu. Ela também me contou que em alguns momentos teve medo, que se perdeu à noite, que teve que se livrar de um cara que tentou seduzi-la, que perdeu dinheiro comprando passagens erradas, mas nada que ela não soubesse lidar e principalmente tirar lições para a vida.
A viagem da brasileira ainda não terminou. Ela ainda tem mais 7 dias em solo europeu. Sem falar com o namorado terá que se virar sozinha até voltar para o Brasil. Durante sua estada em Barcelona ela saiu somente duas vezes, naqueles ônibus de turismo, sem descer em nenhum ponto. Está contando as horas pra voltar pra casa da mãe.

Sei que essas duas meninas, assim como eu, somos privilegiadas por uma condição financeira bem diferente da maioria da população brasileira. Mas eu, acredito que todas as pessoas, de qualquer lugar do mundo, de qualquer condição social, podem aprender a lidar melhor com seus medos e por fim, vencê-los. Aprender isso daria poder às pessoas, que poderiam ter mais controle de suas vidas, e força para realizar seus sonhos e desejos. Teríamos mais vitoriosos, menos frustrados, e sucessivamente um mundo melhor.

As forças ocultas do universo!

Depois de mais de uma semana dormindo num quarto privado, em airbnb e em casa de amigo, depois de seis meses de viagem, voltei para a vida de hostel em quarto compartilhado.
Ontem era um vai e vem de homens passando de cueca como se estivessem em casa. O mesmo papo de sempre se repete. De onde vc é? Brasil! Eu sou de Nova York. Como se todo mundo no mundo tivesse que saber onde é NY. Da próxima juro que respondo que sou de Porto Alegre, sem falar que sou brasileira!
Coloquei o meu fone de ouvido que serve como repelente, mas a animação desses viajantes de férias não é inibida por um simples fone. Querem conversar, falar, saber por onde vc já esteve na cidade, numa ânsia de não perder nada.
Eu, cansada, só queria ficar na minha, repudiava aquele desfile de corpos, e todo aquele falatório na minha frente! Dormi o dia todo, aproveitando o quarto vazio para relaxar por algumas horas.
Não é fácil, realmente chega a hora que cansa. Cansa de não ter mais privacidade, de dormir com barulho e luz, de ser obrigada a conhecer gente nova, de ser simpática, de vestir a mesma roupa, simplesmente cansa! E eu estava me sentindo cansada quando passei pela recepção sorrindo (isso sempre), e a menina brasileira da recepção me chama pra me apresentar outra brasileira.
Meio de saco cheio conto resumidamente sobre a minha viagem, quase colocando pra rodar a gravação que tenho sobre o tema, toda vez que me perguntam. A menina nem pisca para ouvir o que estou falando, e quando termino, com o olhar mais espantado possível diz: Nossa, como vc é corajosa, gostaria de ter essa coragem! 
Já ouvi isso algumas vezes, mas confesso que hoje teve um valor especial. Me fez lembrar que sim sou corajosa, e que devo jogar esse meu cansaço para baixo da cama, e seguir adiante! Aproveitar cada minuto dessa experiência incrível que muita gente gostaria de experimentar. 
E viva assim aos corpos semi nus passando pela minha frente todas as manhãs!

Parte II de sou corajosa e tenho que espantar o cansaço!
Saio do hostel decidida a embarcar no ônibus para Bilbao que partia as 11 da noite. Coloca toda as malas nas costas, pega metrô, troca de estação e chega com uma hora de antecedência na estação. Vou até o gichê pra comprar a passagem, mas num inteligente sistema de vendas de passagem, para o ônibus que sai daquela estação devo comprar o ticket numa outra estação.
Saio correndo, volto pro metrô, e tento chegar à tempo na outra estação para pegar o bus que saia de lá as 22:45. Chego em cima da hora, mas o guichê de venda de passagens já está fechado. Mas há uma máquina de venda de passagens, minha última chance. Tento de todas as maneiras comprar o ticket mas não funciona de jeito nenhum. Perdi o ônibus. Respira fundo, pega a mochila e volta pro hostel! 
Como sou uma menina de muita sorte o pessoal do hostel me recebeu de braços abertos.
É isso aí, a resistência me persegue, mas eu não to nem aí pra ela! Amanhã tentamos de novo! E vamos que vamos que Bilbao me espera!

Parte III do dia que poderia virar um conto!

Sentada na recepção, relaxando antes de voltar para o quarto, entra o menino brasileiro, namorado da brasileira que tinha conhecido à tarde. Ele está chorando carregando todas as suas malas de volta.
Ele começa a falar com a moça da recepção pedindo desculpas pelo o acontecido.
A mesma moça da recepção que tinha me apresentado a sua namorada agora diz pra ele sentar comigo ali e me pedir alguns conselhos. Eu com certeza poderia ajudá-lo. 
Eu??? Eu mesma??? 
Ele senta ao meu lado e começa a contar a história de briga e paixão entre ele e a namorada. Eles haviam discutido (não entendi muito bem porque), e num acesso de fúria ele tinha resolvido ir embora é deixar a menina ali!
Claro, uma decisão muito coerente com sua idade. Ele tem apenas 21 anos e me conta detalhes de seu longo namoro de um ano, dizendo que se ela realmente amava ele não teria mandado aquela mensagem para um outro carinha há seis meses atrás. Ai, ai, sério? Agora sou terapeuta de um jovem menino apaixonado e inconseqüente.
Nem sei bem o que estou dizendo pra ele, quando ele me pergunta: vc já sofreu em algum relacionamento?
Ai, ai de novo. Sim, se eu não tivesse sofrido não teria nunca me relacionado. Faz parte da vida, faz parte do amor.
E vamos que vamos que amanhã é um novo dia repleto de amor! Disso eu tenho certeza!

Parte IV da saga para Bilbao

Sei que muitos vão ler isso e pensar, "nossa, como ela é criativa para inventar histórias", mas eu juro que tudo descrito aqui reflete a verdade, somente a verdade, e nada mais além da verdade.

Há três dias atrás decidi que visitaria Bilbao. No primeiro dia, decidi que pegaria o bus que partiria pela manhã, e coloquei o despertador do celular pra tocar cedinho. O celular tocou, tocou denovo, e denovo! E eu? Perdi o horário! Uma coisa simples, que as vezes acontece, comigo quase nunca, mas naquele dia aconteceu. Tudo bem, tentamos de novo amanhã. 
No dia seguinte decidi pegar o ônibus da noite, e aconteceu tudo aquilo que contei no post passado.
E aí, finalmente ontem, decidi fazer tudo certinho pra que NADA pudesse dar errado. Coloquei o despertador pra acordar cedo. O despertador tocou e eu levantei. Fui ao terminal de ônibus comprar o ticket para o ônibus. Comprei o ticket com horas de antecedência.
A noite, mais de uma hora antes do horário da partida sai do hostel com destino ao terminal. Cheguei lá, tudo certo, o ônibus está lá, coloco a mala no bagageiro, tudo certo, me sento no meu banco confortavelmente e aguardo.
O ônibus parte com destino à Bilbao! Uhu!!!!
Depois de andar duas quadras o telefone do motorista toca e ele para o carro no meio da rua.
Depois de uns minutos falando no celular, levanta-se e comunica os passageiros.
"Acabo de receber a informação que a estrada que vai até Bilbao está bloqueada por causa da neve. Não poderemos realizar o serviço hoje  e estamos voltando a Barcelona".

Bom, na linha do que acredito, nada nessa vida acontece por acaso. E por algum motivo o Universo não quer que eu vá pra Bilbao. 
Tá bom! Já entendi! Mudança de planos, mudança de rota! E vamos aproveitar um pouco de Barcelona porque ela merece, depois de tudo isso.

P.S: quando retornei ao hostel presenciei, e participei quase obrigada, de uma das brigas de casais mais agressivas que vi na minha vida. Mas essa eu vou deixar pra contar depois, porque se não, ninguém mesmo vai acreditar que tudo isso pode acontecer numa mesma viagem! Heheheh